Transtornos do movimento pediátricos – Uma introdução

Os transtornos do movimento são, por definição, síndromes neurológicas em que há excesso de movimento ou uma escassez de movimentos voluntários e automáticos, sem relação direta com fraqueza ou espasticidade. O campo de estudos sobre os transtornos do movimento pediátricos é relativamente recente e se encontra em expansão. Esforços vêm sendo feitos no sentido de se solidificar definições adequadas à população pediátrica, expandir espectros clínicos, compreender causas genéticas e avaliar a efetividade das intervenções terapêuticas nessa população. Iniciativas como o Pediatric Movement Disorders Special Interest Group, parte da International Parkinson and Movement Disorder Society, e a National Institute of Health Task Force on Childhood Motor Disorders têm contribuído significativamente para a expansão do conhecimento nesta área.


Na infância, os transtornos do movimento muitas vezes diferem daqueles de apresentação na idade adulta, em termos de patogênese, apresentação e manejo. Enquanto em adultos as condições hipocinéticas predominam (aquelas nas quais há uma pobreza ou lentidão de movimentos), especialmente a doença de Parkinson, as crianças mais frequentemente se apresentam com hipercinesias (ou seja, um excesso indesejado de movimentos), tais como distonias, coreias, ataxias, tremores, tiques e outros.


O transtorno do movimento mais frequente infância e na adolescência é o tique, mais comumente como transtorno de tique transitório, condição em geral autolimitada e comum na prática pediátrica. Os demais movimentos anormais comuns na infância são em geral secundários (ou seja, consequentes a uma lesão no sistema nervoso central), como os decorrentes de paralisia cerebral, situação na qual frequentemente se apresentam combinados. Uso de medicamentos e drogas de abuso, particularmente as estimulantes, também são causas relevantes. Existe ainda um crescente número de patologias heredodegenerativas em identificação, responsáveis por movimentos anormais secundários de apresentação na infância. Os erros inatos do metabolismo contribuem com uma parcela significativa dos transtornos do movimento pediátricos, com importante impacto negativo na qualidade de vida.


A identificação e classificação adequadas do movimento são fundamentais para diferenciá-lo de outras condições com manifestações motoras, como as crises epilépticas. Essa diferenciação é especialmente importante em condições em que transtornos do movimento e epilepsia podem coexistir, como na paralisia cerebral. Movimentos anormais não causam alteração de nível de consciência, via de regra não são precedidos por pródromos não-motores e não são acompanhados por alterações eletrográficas epileptiformes. Determinados movimentos podem, no entanto, apresentar resposta a fármacos antiepilépticos.


Em certos casos, um distúrbio do movimento precisa apenas ser diagnosticado como benigno ou próprio do desenvolvimento. Em outras situações, pode haver comprometimento importante da qualidade de vida (nos casos de distonias, coreias e certos tiques) e mesmo risco de morte (como no status distonicus). Além do tratamento direcionado ao sintoma em si, a ocorrência de um transtorno do movimento em um paciente pediátrico pode também sinalizar uma condição que demande um tratamento específico (como na coreia de Sydenham, nas síndromes neurológicas autoimunes ou nos erros inatos do metabolismo tratáveis), aconselhamento genético (como nas distonias genéticas) ou acompanhamento psiquiátrico (como na síndrome de Gilles de la Tourette).


O diagnóstico de um movimento anormal se baseia em sua fenomenologia, que consiste na caracterização qualificada do movimento pelo observador, segundo classificações padronizadas e válidas para adultos e crianças. A descrição e eventual encenação do movimento pelos responsáveis são importantes e podem trazer dados relevantes. Por vezes, não é possível observar diretamente a alteração ou capturá-la em sua totalidade durante a consulta, o que é particularmente verdadeiro nos casos dos transtornos do movimento paroxísticos. Nesses casos, o seu registro em vídeos tem grande valor. Pode ser realizada ainda a análise em laboratórios de marcha. Por vezes, a eletroneuromiografia direcionada à análise do movimento pode contribuir para sua caracterização e para o diagnóstico diferencial, particularmente em casos mistos ou atípicos. Em casos selecionados, como no estudo de distúrbios psicogênicos ou na determinação do local de origem de uma mioclonia no sistema nervoso central, o estudo eletroneuromiográfico pode ser complementado por acelerometria, eletroencefalograma e potenciais evocados somatossensitivos. A eletroneuromiografia pode ainda auxiliar na definição de músculos-alvo para o tratamento com toxina botulínica.


Particularmente nos quadros em que não se trata de tiques, observa-se um atraso de anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico, o que sugere que frequentemente os transtornos do movimento pediátricos sejam subdiagnosticados e/ou diagnosticados equivocadamente. Além disso, dada sua complexidade e a necessidade de investigação genética frequente, dados de um centro de referência mostram que a obtenção de um diagnóstico definido nesses casos chega a apenas 17%.



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